Mostrando postagens com marcador A blaster dançarina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador A blaster dançarina. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A blaster dançarina



Todos nós adotamos um modelo na vida. Geralmente é uma pessoa muito especial, cujas qualidades e ações nos fazem querer segui-la, alguém tão autêntico e original que mereça ser copiado.

Para mim, esta pessoa é a Vovó Nenzica. Ela já se foi, e em dezembro deste ano serão 10 anos de saudades!

E hoje quero dividir com vocês uma das muitas histórias desta mulher sensacional, que me deixou como herança uma vontade imensa de ser feliz todos os dias, de comemorar a importância das coisas cotidianas, e de aproveitar sabiamente todas as oportunidades.

Eu tinha mais ou menos uns 18 anos. Morava com minha avó em Goiânia, e ela chegou toda animada da rua, me dizendo que participaria de um concurso de dança de salão para a terceira idade (na época era isso mesmo, não existia ainda a expressão "melhor idade").

Para aqueles que não a conheceram, minha avó era uma pessoa MUITO ativa.
Ativa até demais, se vocês querem saber.
Com 80 anos, ela fazia hidroginástica, caminhada, aula de teatro, de dança, de canto, participava do grupo de "bordadeiras" de três creches diferentes, e ainda tinha fôlego para os "suarés" dançantes, 3 vezes por semana.

A maior parte de suas amigas era, pelo menos, 20 anos mais jovem. Não era fácil aguentar o pique da Dona Nenzica!

Dito isso, não foi uma surpresa saber que minha avó participaria do concurso. Ela estava habituada a se apresentar em alguns eventos com a escola de dança e até mesmo sozinha, nas festas da família e de amigos.

No entanto, eu me lembro muito bem de ter ficado orgulhosa, afinal, ela enfrentaria dançarinos bem mais novos do que ela, pois a idade mínima era de 60 anos.

Talvez por isso, dei a maior força!
Ela convidou um amigo para ser seu parceiro, e ele ficou muito entusiasmado. Na época ele era um sessentão muito interessante, cheguei até a pensar que rolava "um sentimento" entre eles, mas depois percebi que era bobagem minha, e que tudo não passava de amizade.

Os ensaios aconteciam na sala do apartamento, e eu não estava autorizada a ver.
"É segredo", dizia ela, toda  animada.
Eu cheguei a espiar algumas vezes, e eles levavam aquilo SUPER à sério. Eu achava uma graça, mas torcia de verdade para que tudo desse certo.

Alguns meses depois, chegou o grande dia. Com todas as fantasias em mãos, seguimos para o salão de festas de um hotel no centro da cidade.

Chegando lá, fui logo avaliando "os concorrentes". A grande maioria era de casais que frequentavam as aulas de dança de salão, e a média de idade era de 65 anos.
Observando as dançarinas, a princípio acreditei que minha avó ganharia fácil aquela competição, pois as vovozinhas não estavam com cara de serem "grandes ameaças".

E quando o primeiro casal se apresentou, fiquei ainda mais esperançosa. Apesar de super simpáticos, a coreografia deles era bem "basiquinha", meio chuchu com pão, sabem?!

Vieram os outros casais e a sensação continuava a mesma: "vai ser moleza!", pensei.

Então chegou o grande momento, e nossa família aplaudiu de pé a entrada da Vovó Nenzica e seu parceiro.

A primeira modalidade era o Tango, e o casal já chegou arrebentando. O vestido que ela usava tinha uma "senhora" fenda dos lados, mostrando as belas pernas da minha avó que, apesar da idade, estava em plena forma física.
Ela tinha muita expressão, e os movimentos do casal foram considerados "ousados" para um campeonato da "terceira idade". A platéia vibrou muito!

Em seguida vieram a salsa, o samba e a valsa, e eles não decepcionaram. No final da apresentação, ouviram-se os gritos de "já ganhou", e não foram só da nossa família.

Eles seguiram para o camarim, e nós ficamos ali, curtindo a "quase" vitória da Dona Nenzica.

As luzes se apagaram novamente, e ficamos à espera do último casal. Assim que eles entraram, o salão em peso ficou de queixo caído!

Movendo-se graciosamente no palco, o casal que acabara de entrar parecia saído de um filme. ELE: um Richard Gere do Cerrado, um setentão muito bonito, de sorriso maroto. ELA: uma mulher maravilhosa, de corpo escultural, daqueles de fazer inveja até na Thunder Sarada!

Só tinha um pequeno probleminha: a moça não devia ter mais do que 25 anos!

Meu povo, e como ela dançava bem!
O parceiro a jogava pra cima, pra baixo, de um lado pra outro, e ela flutuava pela pista, como se aquilo fosse a coisa mais simples do mundo!
O público masculino, que até então estava se lixando para aquela competição, de repente ocupava a primeira fila, aplaudindo com um entusiasmo irritante a performance da "Blaster Dançarina".

E eu, como não poderia deixar de ser, estava, digamos assim, EMPUTECIDA!
Olhava para aquele espetáculo, para a platéia, para o juri e pensava: "que palhaçada é essa? Não era pra ser um concurso de dança da "terceira idade"? O que que essa "pirigueti" xexelenta está fazendo aqui"?

Fui logo botando a boca no trombone: "Marmeladaaaaaa... uuuuuuuuuu..."
E o barraco logo se instaurou, com o apoio de toda a minha família.
Gritamos, protestamos, mas a apresentação continuava... Alguns espectadores também se indignaram, mas a mesa dos jurados continuava de olho nos movimentos do casal, completamente alheia ao bafafá do salão.

Quando, enfim, a música terminou, nos juntamos em frente ao juri, todos querendo tirar satisfação e pedir a retirada da Blaster Dançarina da competição.
Afinal, ela não cumpria com os requisitos da prova.

E então, veio a revelação: a regra, apesar de injusta, era clara: apenas UM dos participantes tinha que ter acima de 60 anos!

POM POM POM POOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOM
(Musiquinha da derrota)

Acho que nem preciso dizer né, mas a Blaster Dançarina e seu parceiro, Richard Gere do Cerrado, levaram o troféu de primeiro lugar.
Minha avó e seu amigo ficaram em segundo, mas ela não se abalou.
Saiu dali avisando a todos que participaria de um concurso de beleza no mês seguinte, e todos deram muita risada!

Menos eu, que já fiquei tensa, imaginando qual seria a pegadinha da próxima competição.

E eu não estava errada, foram fortes emoções!

Mas essa fica para uma próxima oportunidade!


Antes de me despedir, quero lhes apresentar a minha estrela, dançando flamenco na casa da Tia Márcia.





Saudadesss, vovó!

Um dia a gente se reencontra!

Beijosss!

A Autora

Faça Parte!

Os 10 mais lidos

Arquivo do blog

Visualizações de página